sexta-feira, 20 de setembro de 2013


Mortas memórias em memória dos mortos


Quem nunca se esforçou para lembrar algo que nem sabia exatamente o que era? Chamo isso de memórias mortas. Ok, talvez seja coerente pensar que se tentamos lembrar não estão completamente mortas. Mas algo morre completamente?
Nós mesmos, não sucumbimos de repente. Não simplesmente desaparecemos no ar sem deixar vestígios. Sempre permanecem alguns rastros, marcas de nossa passagem, que aos poucos vão tornando-se mais sutis em meio a tudo que continua a mover-se. Um dia, talvez 100 ou 200 anos depois, ninguém mais dá pelas cicatrizes que deixamos, e se dá-se por elas, não sabe bem quem é ou o que é, exatamente como essas memórias mortas, escondidinhas lá, à um canto esperando para dar aquele sopro gelado de algo que nós jamais descobriremos o que é.
Um corpo por estar dissolvendo-se, segundo o sistema que a natureza impõe, não está dissolvendo o seu legado enquanto indivíduo, tal herança não pode ser maculada pelo tempo, apesar de a impressão ser justamente o contrário. Os feitos permanecem, as sutilezas que determinaram cada caminho não se apagam. Apaga-se (na maioria das vezes) o nome de quem desenhou a trajetória, mas isso não exclui o que foi feito, exclui apenas o herdeiro da coroa de louros. Exatamente como memórias mortas, estão ali, mas é impossível decifra-las por completo.
Talvez esse seja o segredo da vida, que nada mais é do que o processo da morte. No dia em que nascemos, começamos vagarosamente a cumprir o caminho impassível da natureza: a morte.  O dia, o minuto, o instante derradeiro, nada mais é do que a extensão do dia em que viemos ao mundo... do instante de nossa fecundação... do dia em que nossos pais se olharam pela primeira vez... a MPB... o terceiro reich... a revolução francesa... o declínio de Roma... o domínio do fogo... tudo interligado e fadado ao fim, sem jamais deixar de existir verdadeiramente. A fecundação, o nascimento, a morte e a putrefação, são apenas as partes de um todo, que não é vida nem morte, é apenas o existir.
A ilusão que a terra habilmente nos incuti, de que vivemos e permaneceremos enquanto seres, é apenas o mecanismo para preservar o ciclo. Nada é novo. Não somos a novidade que mudará a história do planeta, nem tão pouco somos indispensáveis. Somos únicos ao mesmo tempo em que somos apenas mais um. Somos apenas mais uma peça, o que não nos torna uma peça menos especial. O traído não foi o primeiro a ser enganado e nem será o último, mas isso não quer dizer que toda traição seja igual. Os que se amam, não são os únicos a provarem o amor, porém isso não torna o amor, um amor qualquer.
Assim é a morte, somos apenas mais um a morrer, entretanto isso não quer dizer que seja uma vida vulgar e sem valor que se apagou. Assim são as memórias mortas, que mesmo com seu detentor morto, não deixarão de pairar no ar. A morte é apenas o fim e o reinício do ciclo. Sendo assim, enquanto se morre, vive-se novamente, não necessariamente como um novo ser, mas em todos eles. No ciclo. No sistema. Na matrix, talvez. Ok, aí eu fui longe demais. Mas ainda permanece uma fagulha, uma sobrevida. E junto com ela, as memórias renascem também, meio mortas. Meio sem cor. Um tanto quanto vagas, mas ainda assim presentes, como nós mesmos seremos após a partida/chegada.

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