Reconstrução
Ela está se reconstruindo, está mudando, se levantando, se
transformando, se recriando e se reinventando. Renascendo. Ela está sacudindo a
poeira, está levantando a cabeça e se desafiando a ser mais forte. Esta se
preparando para o esperado e mais ainda para o inesperado.
Ela cresceu, recém passou pela adolescência e agora tem saudade
da infância.
Esse tempo todo de lágrimas, de amores e desamores, esse
tempo de se conhecer e depois não saber quem é, toda essa confusão fez ela
sofrer e rir, fez ela beber e cair, fez ela se apaixonar e esquecer, fez ela
amar e odiar e ambas com uma intensidade que quase a fez se destruir.
Todo esse emaranhado de sentimentos e sofrimentos fez com
que ela percebesse que era tudo parte de sua evolução, de um ritual de passagem
para um novo tempo, para uma nova era, para ela se tornar e se ver como adulta.
E todo o adulto sente saudade da infância, todo o adulto é alguém que complica
as coisas e sente saudade de quando elas eram simples.
A etapa foi dura, ela tropeçou, caiu, ralou os joelhos e a moral,
olhou para os lados esperançosa em avistar alguém que cuidasse de seus
ferimentos.
Ela chegou ao fundo do poço e lá se consumiu em sua própria desgraça
querendo chegar ainda mais fundo, se esconder do mundo e de si mesma.
Ela nadou contra a maré, lutou, orou aos deuses para morrer
ou ser salva pela única criatura que lhe importava naquele momento, e então se
entregou a correnteza até se afogar e perder os sentidos.
Ela atravessou o lamaçal, se sujou de barro, quase se
sufocou no lodo e implorou por ajuda, gritou em silêncio, sussurrou e implorou
em seu íntimo por uma mão que se estendesse voluntariamente, por alguém que a
entendesse e a valorizasse.
Não adiantou.
Ninguém a ajudou em sua jornada, ninguém ofereceu uma corda
ou uma mão para que ela saísse do lamaçal.
Ninguém surgiu em meio ao mar e a salvou antes que se
afogasse.
Ninguém acorreu para lhe puxar do poço em que ela caiu
Ninguém tratou de suas feridas, ou sequer atentou para suas
chagas.
Porém, ela percebeu o mais importante: ninguém notou toda
essa jornada. Ninguém foi capaz de atentar para a mudez de seus gritos, ou
entender que ela pedia por socorro sem que em seus olhos transparecesse o
pavor.
Tudo isso aconteceu e ela sobreviveu. Talvez não desejasse
ter sobrevivido, mas ela estava lá, mais viva do que nunca e agora sabia que
estava pronta para essa nova etapa. Entendeu que se queria ser ouvida, não
poderia ser por pensamentos, era necessário gritar. Se queria socorro, não era
aos deuses que deveria rogar, mas sim a quem estava ao seu lado. Percebeu que
era preciso chorar, para que mágoas pudessem ser curadas. Era preciso se impor
para ser notada, que não podia ter medo de ocupar um espaço que era dela e de
mais ninguém.
Ela curou suas próprias feridas com o tempo, e aprendeu a
suportar a dor sem que ninguém viesse lhe fazer curativos.
Ela subiu as paredes do poço e perdeu a pele dos dedos na
escalada, mas criou calos que lhe permitirão subidas mais altas de hoje em
diante.
Ela acordou em meio às águas e avistou uma ilha, nadou até a
praia com seu último fôlego, mas hoje ela sabe em qual correnteza pode se
aventurar.
Ela quase foi tragada pela lama, mas lutou, se debateu e
voltou a tona, encontrou raízes onde se agarrar e pisou novamente em terra firme.
Hoje ela testa onde pisa para depois dar um passo a frente.
Ela vive esse novo momento, esse momento de
mudança, de passos firmes, seguros, de caminhadas mais árduas, mas de
recompensas maiores. Ela mudou e isso era uma imposição. Sua odisseia lhe impôs
metamorfoses que ela sozinha não seria capaz de desenvolver. Ela se reinventou
para não ser mais surpreendida e ainda assim viver algo novo a cada segundo.
Ela fez escolhas erradas, em momentos errados e com pessoas erradas, ela caiu
por suas escolhas e pagou o preço delas, mas ela se levantou e hoje olha de
cabeça erguida e sem arrependimentos para seu passado. Hoje ela está calejada e
pronta para beber em sua saúde, e a de mais ninguém, pois, hoje o que mais
importa a vida, é viver.
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