Conto para a água, um poema e alguns
acontecimentos
Esse cara, que você não precisa
saber quem é (e se precisa não saberá), tomou mais um mate, estava desgostoso
com essa maldita rotina (bagunçada) que, já começava a adormecer seu ser. A
água quente com o sabor da erva-mate, desceu-lhe pela garganta rasgando seus
pensamentos até o último gole e o último ronco.
Foi o último chimarrão, a água
acabara.
Aquele último trago impeliu-o a
sair e repensar sua vida, ou simplesmente pensar sobre o último Grenal. E assim
ele fez.
Saiu e caminhou. Sentiu o aroma
da água, que corria no Rio próximo a sua casa e resolveu ir ouvir mais de perto
o barulho da correnteza. Foi até a ponte e caminhou até o meio dela... lá ele
parou e se sentou. Sentado, ele pensou.
Enquanto pensava com seus fones,
uma forma que descia água abaixo lhe arrancou da alucinação que o som do rock
lhe estava proporcionando. Aquela forma que descia, logo foi identificada, e
ele percebeu (pasmem) sem espanto, que se tratava de um corpo humano.
O corpo seguiu e parou preso em
alguns galhos.
Ele seguiu observando aquele ser
e começou a formular hipóteses sobre quem seria aquele indivíduo. Seria José,
João ou Pedro? O que será que fazia da vida? Trabalhava? Estudava? Rico ou
Pobre? Bebia? Seria fumante? Casado, solteiro, namorando? Será que gostava de
dançar? Ele gostava, fumava e queria beber.
Todas essas perguntas lhe
proporcionaram uma visão óbvia, mas muitas vezes não constatada da morte: na
morte, nada mais importa além da própria morte.
Na morte, não existem diferenças,
são todos corpos sem vida. Almas que se apagam.
Formulou perguntas perigosas
como:
“Quem se importaria se aquele
corpo ali na água fosse o meu?”
Então tirou o cantil de whisky do
bolso e tomou mais um trago. Riu com uma piada que vira em alguma rede social,
sobre a morte do Niemayer e tomou outro gole.
Entre o Niemayer, a CIA, o novo
reforço do América de Minas e um protesto no Egito, a bebida acabou. Sacou
então do outro bolso um charuto. O último. Cortou. Acendeu e aspirou sem tragar
a fumaça tóxica, afinal ele não fumava, mas achava aquele gesto de acender o
charuto, aspirar e devolver a fumaça para a atmosfera, muito sexy.
Na fumaça, viu o rosto risonho da
fumante mais graciosa que ele já conhecera em toda a sua vida. Olhou o corpo
novamente e percebeu que ele se desvencilhara dos galhos e estava novamente
descendo o curso do rio e que em breve passaria por ele e se perderia água
abaixo.
Não mais pensou.
Se jogou na água e se agarrou com
todas as forças naquele ser sem vida.
Nadar ele sabia, mas estava
cansado. Não lhe parecia certo nem proveitoso continuar a remar nesse mar de
informações. Percebeu então que estava se afogando, e isso lhe confortou.
Então se afogou. E morreu.
E ao morrer emergiu e ao emergir
respirou, e ao respirar percebeu que finalmente deixara de formar suposições
sobre uma tragédia entre duas almas e dois corpos que sequer sabiam da
existência um do outro até algumas horas atrás.
Assim começara sua manhã, com a
água quente do chimarrão afogado de desventuras e assim ela terminou: com a
água gelada em que se afogara para respirar após tanto tempo de asfixia.


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